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 Marina Silva, candidata do PV à Presidência da República, quer conciliar desenvolvimento e proteção ambiental
Por Rafael Sânzio
A pré-candidata do Partido Verde (PV) à Presidência da República, senadora Marina Silva, considera que os 16 anos de governos democráticos de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) trouxeram ganhos econômicos e sociais ao Brasil. Apesar disso, defende que o país precisa avançar em reformas sociais e na conjugação entre desenvolvimento e proteção ao meio ambiente.
Também considera que é preciso construir um novo paradigma de alianças para evitar dramas políticos como o escândalo que envolve o Governo de Brasília. Marina esteve em Belo Horizonte ontem para proferir palestra para jovens de uma igreja evangélica. Antes, concedeu entrevista exclusiva ao HOJE EM DIA, quando detalhou seus projetos para o ano eleitoral.
Como estão as articulações para a campanha eleitoral deste ano?
Na verdade, o Partido Verde, antes mesmo da minha filiação, já tinha decidido que poderia ter candidatura própria. E, obviamente, com a minha filiação, me fez o convite para ser a pré-candidata, mas estamos fazendo uma série de discussões em relação à reestruturação e à revisão programática do partido. E, ao mesmo tempo, a direção nacional está discutindo as candidaturas nos estados, com uma orientação de que teremos candidatura própria em quase todos os estados, à exceção do Estado do Acre, onde já há uma decisão de apoiar a candidatura do senador Tião Viana (PT).
Qual será o eixo da campanha do PV?
Nós temos um esforço muito grande para combinar a questão programática e a disputa eleitoral, para qualificar a nossa participação na política de forma que os candidatos a deputados estaduais, os deputados federais, os senadores e os governadores estejam comprometidos com uma mudança de modelo de desenvolvimento.
Que tipo de modelo?
Que seja capaz de atender às necessidades de atendimento de saúde, de educação, de segurança. De como melhorar, inclusive, a qualidade da educação, já que, hoje, quase que 100% das crianças têm acesso à escola, mas é preciso apostar na qualidade, treinando os professores, dando condições para que as crianças possam ter acesso ao atendimento já na infância, como forma de ajudar a que elas cheguem no ensino fundamental com uma base que as ajude neste processo de ensino-aprendizagem.
Como estão as articulações do partido em Minas?
Olha, não temos uma expectativa de que vamos fazer grandes alianças com outros partidos. Nós estamos procurando fazer uma aliança com a sociedade. Eu digo que, na democracia, é possível os partidos terem uma ação de parceria com os núcleos vivos da sociedade, e não apenas o cálculo pragmático de quem tem mais tempo de televisão, mais palanque, mais prefeitura, mais deputado, mais senador. É o momento de você buscar o apoio dos empresários, dos jovens, das mulheres, das crianças, dos adolescentes, dos idosos, dos trabalhadores, das ONGs, da academia.
Mas como governar com este tipo de aliança?
Nós vamos tentar fazer um tipo de aliança sui generis, ainda que com todo o respeito pelo processo da governabilidade que, este sim, se faz com os partidos. Mas qualificando cada vez mais a governabilidade. Que ela não seja um processo casuístico, baseado em fisiologismo, mas em cima de uma plataforma política que coloque em primeiro lugar o interesse do cidadão, o interesse do país, para evitar estas coisas horríveis que têm acontecido repetidamente, cujo pior exemplo, agora, nós temos no caso de Brasília, com a prisão do governador (José Roberto Arruda).
Como a senhora avalia a prisão do governador ?
É um aperfeiçoamento das instituições. A sociedade está cansada de ver fartas provas mostrando que há desvio de dinheiro público, que há corrupção, e os corruptos e os corruptores ficarem soltos. Eu acho que a Justiça fez um gesto que faz com que o cidadão comece a acreditar que a cadeia não é apenas para os pobres, é também para todo aquele que extrapole os limites da constitucionalidade.
Quem o PV deve lançar ao Governo de Minas?
Temos um pré-candidato, que é o (deputado) José Fernando (Aparecido de Oliveira). Essa discussão vai ser aprofundada depois do Carnaval.
E quanto ao vice da senhora?
Há um interesse do partido de que venha a compor essa chapa uma pessoa do mundo empresarial que tenha uma trajetória de vida empresarial e pessoal ligada à sustentabilidade, à defesa do meio ambiente, ao investimento na área social, que é o Guilherme Leal. Esta é uma decisão que será tomada após a decisão da candidatura à Presidência da República, e uma decisão pessoal dele.
Qual a avaliação que a senhora faz da gestão ambiental do Governo Lula?
Tivemos alguns avanços, mas poderíamos ter avançado mais se o conjunto do Governo não tivesse tratado meio ambiente em oposição a desenvolvimento. Quando eu entrei no Governo, eu coloquei quatro diretrizes: controle e participação social, apoio às atividades de desenvolvimento sustentável, fortalecimento do sistema nacional de meio ambiente e política ambiental integrada transversal, ou seja, que o meio ambiente estivesse no conjunto das ações de governo.
O que deu errado?
Esta última diretriz e as diretrizes de desenvolvimento sustentável contaram com uma resistência muito grande da parte do Governo. O que eu acho que andou, e tem andado, é a agenda do Ministério do Meio Ambiente, que é a agenda de comando e controle, de combate às práticas ilegais. O importante é que todas as outras diretrizes tivessem caminhado igualmente. Lamentavelmente, nem o PT, nem o PSDB têm uma concepção estratégica de que pensar o desenvolvimento, no século 21, é integrar à mesma equação a necessidade de desenvolver protegendo e de proteger desenvolvendo.
Como a senhora avalia a construção das grandes hidrelétricas na Amazônia (usinas do Rio Madeira e Belo Monte, no Rio Xingu)?
O potencial de geração de energia de hidreletricidade é muito grande. Cerca de 74% estão na Amazônia. Para que a gente possa usufruir deste potencial, é preciso que se faça o dever de casa. E, infelizmente, não vem sendo feito.
O que não tem sido feito?
Como, por exemplo, ter um olhar cuidadoso para as populações locais, como é o caso dos índios, das populações ribeirinhas, ter um plano de desenvolvimento para a área de abrangência destes grandes empreendimentos, ter uma visão que nos leve a pensar o licenciamento ambiental não apenas de cada empreendimento, mas um olhar para a bacia hidrográfica. É por isso que, quando algumas licenças são dadas, há um forte questionamento da população, como aconteceu agora, com Belo Monte.
Quais são suas propostas em relação à política econômica?
O Partido Verde está nesta discussão há cinco meses, mas temos a clareza de que, em termos de política econômica, não devemos fazer nenhum tipo de aventura naquilo que está dando certo. O país conseguiu, nestes últimos 16 anos, debelar o processo violento que tínhamos de inflação, buscar uma política que levou a um ajuste fiscal, de responsabilidade fiscal, que foi importante para o equilíbrio também das finanças públicas.
E quanto à reforma política?
No que concerne à reforma política, infelizmente, ela virou um consenso oco. Faz muitos anos que todos os partidos dizem que vão fazer e, até agora, ninguém fez. Talvez tivéssemos que fazer um esforço para termos um processo de convocação exclusiva do Congresso. Ontem, o senador Pedro Simon (PMDB-RS) até falou de uma constituinte, só para fazer algumas reformas que não andam em função dos interesses de deputados e senadores.
Fonte: http://www.portaldomeioambiente.org.br/component/content/article/1058-marina-silva/3306-candidata-marina-silva-cobra-avancos-nas-reformas-sociais.html
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